A importância da atuação do nutricionista em Instituições de Longa Permanência para Idosos

quarta, 31 de dezembro de 1969 às 21:00:00
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Trabalho apresentado no XXV CONBRAN analisa a atuação do nutricionista das ILPI do Paraná

O aumento da expectativa de vida da população é uma tendência mundial. Segundo pesquisa do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), o envelhecimento da população brasileira acelerou. Entre 2012 e 2016, o grupo de idosos (pessoas com 60 anos ou mais) cresceu 16%, e os dados da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (PNAD) mostra que o número de pessoas com 60 anos ou mais aumentou de 25.486 milhões em 2012 para 29.566 milhões no ano passado. Esses números trazem uma realidade nova para o país em termos nutricionais e, devido a alterações fisiológicas, hábitos de vida e o surgimento de doenças, é preciso alterar a alimentação de acordo com as necessidades individuais, sempre com a orientação de um(a) nutricionista, que é o(a) profissional habilitado(a) para identificar os riscos de uma má nutrição e intervir para melhorá-la, reduzindo os efeitos adversos causados pela desnutrição.

Atuação do nutricionista nas ILPI

O cenário da atuação do nutricionista nas ILPIs no Estado do Paraná foi descrito pelo trabalho apresentado no XXV Congresso de Brasileiro de Nutrição pelo Conselho Regional de Nutricionistas da 8ª Região (CRN-8), de autoria de Julisse Klemtz Wagner (Coordenadora de Fiscalização do CRN-8) e de Carolina Bulgacov Draton (Coordenadora Técnica), juntamente com a fiscal Alessandra Carvalho Romcaglio. O objetivo do trabalho foi apresentar os resultados da aplicação dos Roteiros de Visita Técnica e demonstrar a atuação do Nutricionista em instituições de longa permanência para idosos. A constatação foi de que a maioria dos nutricionistas não desenvolve suas atividades em instituição de longa permanência para idosos. A falta de avaliação nutricional e o não registro em prontuário inviabilizam a correta intervenção nutricional e acompanhamento multiprofissional. Prescrições de dietas que não atendam às necessidades nutricionais podem agravar o estado de saúde e aumentar a morbimortalidade dos idosos.

De acordo com o trabalho, os dados refletem que, no que se refere à elaboração do diagnóstico nutricional, 51% dos nutricionistas não atingem o Padrão Mínimo. A ausência de avaliação nutricional inviabiliza a detecção precoce de risco nutricional e a intervenção adequada, pois a elaboração do diagnóstico nutricional é pré-requisito para a prescrição dietoterápica. No tocante à prescrição de dietas, 58% dos nutricionistas não atingem o Padrão Mínimo. A prescrição dietética deve ser individualizada e adequada às necessidades nutricionais, pois as dietas equilibradas estão associadas a níveis baixos de marcadores inflamatórios, controle da glicemia, redução do risco de dislipidemias e desenvolvimento de doenças crônicas. Com relação ao registro em prontuário, 65% dos profissionais não desenvolvem esta atividade, sendo que a anotação em prontuário é indispensável para comprovação do atendimento nutricional, bem como para possibilitar a atuação multidisciplinar.

Qualidade de Vida e Economia

O CRN-8 conversou com duas nutricionistas, Camila Mariane Bordignon (CRN-8 855), responsável técnica por uma ILPI que tem como mantenedora a Ação Social do Paraná, e Flávia Cristina Severo (CRN-8 5761), responsável técnica de uma ILPI particular de Pinhais, para mostrar a importância da atuação do nutricionista nas ILPIs, tanto para quem lá vive como para a economia dessas instituições. Também foram entrevistadas a diretora da ILPI, Tânia Azevedo Santanna, e a assistente social Mônica Freitas, do Setor de Serviço Social da Secretaria de Ação Social.

Flávia é a nutricionista responsável da ILPI há 9 anos e, segundo a diretora da instituição, investir no profissional de Nutrição é garantia de economia a médio e longo prazo, além de proporcionar melhora significativa da qualidade de vida dos idosos. “Tínhamos clareza de que se quiséssemos oferecer um serviço melhor para a qualidade de vida dos hóspedes era preciso investir e contratar uma pessoa qualificada, para desenvolver este trabalho. A mudança é visível. É um trabalho de promoção e prevenção”.

Flávia conta que foi um trabalho de anos, quando começou na ILPI verificou segundo o checklist da Resolução da diretoria Colegiada (RDC) 216/14. “Fiz o levantamento e passei o relatório para a administração. Eu tinha consciência de que muitas coisas precisavam ser corrigidas, incluindo as que dependiam de investimento financeiro e naquele momento não havia verba. Assim, adequamos o que não importava em custos. Inicialmente, foquei a Unidade de Alimentação e Nutrição (UAN), principalmente as questões relacionadas com segurança alimentar nutricional (SAN). Fiz o cardápio e a avaliação nutricional trimestral. A partir disso, identifiquei os casos de desnutrição e risco, adequando as dietas e a suplementação, de acordo com a necessidade, além de inserir frutas, legumes e horários fixos para hidratação, e conseguimos reverter o quadro”, conta.

Camila é, desde 2015, a nutricionista Responsável Técnica na ILPI da Fundação da Ação Social de Curitiba. Ela coloca em números o quanto a instituição consegue economizar com o trabalho humanizado de nutrição. “Em 2015, o gasto era, em média, R$ 4500 e, atualmente, com o trabalho de suplementação alimentar, esse custo caiu para R$ 1500 em suplementos. Isso, só mudando a alimentação e incluído a hidratação. Como há idosas que não gostam de água, criamos dois horários para que elas se hidratassem no dia, com água saborizada, gelatina líquida e chás de sabores variados, para estimular a hidratação. Além disso, há a suplementação para as idosas com baixo peso, num horário do dia específico, e para as que estão mais desnutridas, que precisam de um suporte melhor, tem suplementação duas vezes ao dia. Mesmo com todas essas implantações conseguimos reduzir gastos e o número de idosas abaixo do peso também”, explica.

Suplementação e Educação Alimentar Nutricional

Segundo o relato das nutricionistas Camila e Flávia, o número de idosos que chegam das instituições com baixo peso ou desnutridos é elevado. Há a necessidade de um trabalho humanizado e individualizado, pois essas pessoas chegam com hábitos de toda uma vida. Flávia diz que, no começo, quando o responsável por suplementos era a família, que muitas vezes não fazia como havia sido recomendado, trabalhou com suplementação artesanal. “Colocávamos leite em pó no café com leite, adicionávamos azeite de oliva na preparação pronta, além de queijo ralado e creme de leite. Enriquecíamos as preparações com alimentos, sem precisar do suplemento, porém sempre fazendo a cobrança para a família. Atualmente a parte de suplementação está incluída no contrato”, explica.

Para Flávia o que faz dar certo, é estar presente todos os dias na ILPI e oferecer o acompanhamento nutricional tanto na parte clínica, como na produção. “Como fazemos todo o acompanhamento, sabemos o idoso está nutrido, se precisa ou não de suplemento. Temos controle do todo. E com o tempo eles também adaptam, já sabem a hora da fruta, do complemento. Implantamos isso na rotina. As cuidadoras têm escalas que a enfermagem controla, como a hora do preparo dos suplementos, por exemplo, então isso está muito bem implantado na rotina e isso reflete nos idosos. Faz um ano que implantamos a reunião mensal de equipe para montar o plano de cuidados, então todos os profissionais se sentam para definir, com uma pincelada geral de todas a áreas, o que é importante para aquele hóspede, e outra reunião na qual todos podem levar os problemas que estão observando no mês e, em grupo, pensam na melhor forma para resolver aquilo”.

Segundo a assistente social Mônica Freitas, do Setor de Serviço Social da Secretaria de Ação Social, existe um trabalho de nutrição humanizada. “Percebemos a humanização nos profissionais de saúde, incluindo o nutricionista. O indivíduo é visto como um todo pela equipe multiprofissional. Temos reuniões de estudo de caso uma vez por semana com a equipe multiprofissional, fazemos todo um estudo durante a semana e nos reunimos para discutir sobre a idosa, o que está acontecendo com ela, o que podemos melhorar, e isso tem dado ótimos resultados”, esclarece.

Pesquisa

O trabalho apresentado no CONBRAN analisou 80 Roteiros de Visita Técnica aplicados no Estado do Paraná, de janeiro de 2015 a junho de 2017, com nutricionistas que atuam em instituições de longa permanência para idosos. Esse Roteiro é utilizado para fiscalizar o exercício profissional, avaliando o cumprimento das atribuições obrigatórias, mediante indicadores qualitativos:

1. Elabora diagnóstico nutricional com base em dados clínicos, bioquímicos, antropométricos, dietéticos: Meta Padrão-Residentes sem risco nutricional: na admissão e mensal; Residentes em risco nutricional: na admissão e semanal; Padrão Mínimo-Residentes sem risco nutricional: na admissão e trimestral; Residentes em risco nutricional: na admissão e quinzenal; Não-Não atinge Padrão Mínimo;

2. Prescreve dietas, com base no diagnóstico nutricional: Meta Padrão-Residentes sem risco nutricional: na admissão e mensal; Residentes em risco nutricional: na admissão e semanal; Padrão Mínimo-Residentes sem risco nutricional: na admissão e trimestral; Residentes em risco nutricional: na admissão e quinzenal; Não-Não atinge Padrão Mínimo; 3.Registra em prontuário prescrição dietética e evolução nutricional: Meta Padrão-Registra diagnóstico, prescrição e evolução conforme cronologia estabelecida nos itens anteriores; Padrão Mínimo-Registra diagnóstico e prescrição conforme cronologia estabelecida anteriormente; Não-Não atinge Padrão Mínimo.

Diagnóstico nutricional: 51 % não atingem Padrão Mínimo
Prescrição de dietas: 58% não atingem Padrão Mínimo
Registro em prontuário: 65% não atingem Padrão Mínimo