Agosto Dourado: dicas alimentares para quem amamenta
A nutricionista Fernanda Manera explica que viabilidade e apoio familiar são essenciais para pessoas que amamentam

O Agosto Dourado é a campanha dedicada à conscientização, incentivo e apoio ao aleitamento materno. O objetivo da campanha é incentivar a amamentação com leite humano de forma exclusiva até os 6 meses de vida. Afinal, o leite humano é considerado pelos órgãos internacionais de saúde como “padrão ouro”. Ou seja, ele possui todos os nutrientes necessários para o desenvolvimento saudável dos bebês.
Para além disso, a campanha também reforça os benefícios para a relação materno-infantil. Ao amamentar, a mãe desenvolve a relação afetiva com a criança desde os primeiros meses de vida. E tem mais: amamentar traz benefícios diretos para a saúde do pós-parto.
No entanto, em breves pesquisas na internet, é normal encontrar vários mitos sobre esse processo. Como por exemplo, a ideia de que se a mãe não se alimentar bem ela terá um leite fraco.
O Conselho Regional de Nutrição – 8ª Região conversou com a nutricionista Fernanda Manera (CRN-8 9665), especialista em Saúde da Família, mestre em Alimentação e Nutrição, e pós-graduada em Alimentação Infantil e Escolar. A profissional respondeu algumas perguntas evidenciando os cuidados nutricionais válidos para a mãe e outras dicas importantes que podem servir de apoio à pessoa que amamenta.
Vamos conferir?
Pergunta: Qual é a importância da alimentação da mãe durante o período de amamentação para sua saúde e bem-estar?
Resposta: Um dos maiores mitos da lactação (amamentação) é a ideia de que uma alimentação inadequada resultará em um “leite fraco”.
A fisiologia humana é extraordinária: o organismo feminino prioriza a sobrevivência e o desenvolvimento do lactente (bebê que mama), mobilizando as reservas corporais da mãe para manter a composição nutricional do leite constante. Isso significa que o maior prejuízo de uma dieta insuficiente ou desequilibrada cai diretamente sobre a saúde e o bem-estar da própria mulher.
A produção de leite demanda um gasto energético expressivo, em torno de 400 a 500 quilocalorias diárias adicionais. Quando a mulher não consome calorias e nutrientes suficientes, o corpo entra em estado de catabolismo para suprir essa demanda.
O catabolismo é o processo em que nosso corpo quebra moléculas grandes em partes menores para liberar energia. Quando a pessoa está mal alimentada ou em uma dieta sem nutrientes suficientes, esse processo deixa de ser um mecanismo natural de energia e passa a ser prejudicial. Isso porque o organismo consomo as próprias estruturas.
O resultado direto é uma exaustão física profunda, perda de massa magra, lentidão na recuperação tecidual do pós-parto e maior vulnerabilidade a alterações de humor e episódios de depressão pós-parto. Cuidar da alimentação materna é, em primeiro lugar, um ato de preservação da saúde da mulher.
Pergunta: Quais nutrientes merecem atenção especial na alimentação de mulheres que estão amamentando?
Resposta: Embora os macronutrientes do leite (como gorduras totais, proteínas e carboidratos) permaneçam relativamente estáveis, a concentração de diversos micronutrientes e o perfil lipídico do leite dependem diretamente do estado nutricional e da ingestão alimentar da mãe.
O ômega-3, por exemplo, é importante para o desenvolvimento cerebral e visual do bebê, e seus níveis no leite variam conforme o consumo materno de peixes gordurosos ou suplementação.
A vitamina D e a vitamina B12 também exigem vigilância constante: a B12 deve ser suplementada em lactantes vegetarianas ou veganas, enquanto a vitamina D frequentemente necessita de adequação.
Além disso, minerais como ferro e zinco são essenciais para a recuperação da perda de sangue do parto, e o cálcio precisa de aporte adequado para proteger a densidade óssea da mãe, já que a lactação promove uma mobilização fisiológica transitória desse mineral das reservas maternas.
Por fim, a hidratação desempenha papel central: a ocitocina liberada na amamentação estimula a sede, e manter uma ingestão de água abundante é fundamental para a autorregulação do corpo e o conforto da mulher.
| ALIMENTO | NUTRIENTES |
| Sardinha em lata | Ômega-3, vitamina D, vitamina B12, cálcio, ferro e zinco |
| Ovos | Vitamina D, vitamina B12, ferro e zinco |
| Frango | Ferro e zinco |
| Leite integral | Cálcio, vitamina D e vitamina B12 |
| Vegetais escuros | Cálcio e ferro |
| Chia e linhaça | Ômega-3 |
| Gergelim | Cálcio |
Os alimentos acima são alguns exemplos, mas o ideal é sempre consultar um nutricionista para uma dieta individualizada e adequada ao seu caso.
Pergunta: Quais são os principais desafios que as mães enfrentam para manter uma alimentação equilibrada nos primeiros meses após o parto?
Resposta: Entender a realidade prática do puerpério é indispensável para evitar prescrições irrealistas.
O primeiro e maior obstáculo é a privação do sono. A privação crônica de sono altera o ritmo circadiano e desregula hormônios como grelina e leptina. Consequentemente, isso aumenta fisiologicamente o desejo por carboidratos refinados e alimentos ultraprocessados de rápida energia.
O segundo desafio é a escassez de tempo e de “braços livres”. A rotina do recém-nascido em livre demanda torna difícil o ato de planejar, cozinhar ou até mesmo se sentar para fazer uma refeição completa com calma.
Para completar, muitas mulheres ainda sofrem com mitos e restrições desnecessárias impostas por conselhos ultrapassados. É comum atender mães que cortaram drasticamente feijão, vegetais crucíferos (exemplo brócolis e couve-flor), ácidos ou laticínios da dieta sem qualquer diagnóstico clínico de alergia no bebê, gerando um estado de restrição calórico-proteica severo e injustificado.
Disponibilizar informação de qualidade é essencial para conscientização sobre esses desafios e evitar a autoprescrição de dietas sem embasamento científico.
Pergunta: Que orientações práticas você costuma dar para mulheres que desejam se alimentar de forma saudável durante a amamentação?
Resposta: A palavra-chave é viabilidade.
Dietas rígidas ou excessivamente elaboradas fracassam no pós-parto. A estratégia deve focar em simplificar a rotina e aumentar a densidade nutritiva.
Recomendo focar nos chamados “lanches de uma mão só” — alimentos densos em nutrientes que a mãe possa consumir facilmente enquanto segura ou amamenta o bebê, como mix de castanhas, frutas secas, ovos cozidos, palitos de vegetais com pastas nutritivas ou sanduíches naturais pré-montados.
Outra orientação prática é o planejamento antecipado: incentivar o congelamento de refeições nutritivas (como sopas, ensopados e carnes moídas com vegetais) ainda na reta final da gestação.
Quanto às restrições, o profissional deve ser categórico ao tranquilizar a mãe: nenhum alimento precisa ser retirado preventivamente da dieta sem que haja suspeita diagnóstica real ou orientação médica/nutricional específica. Para a hidratação, a regra de ouro é espalhar garrafas de água pelos pontos estratégicos da casa onde a mãe costuma sentar-se para amamentar.
Pergunta: Como a família e a rede de apoio podem contribuir para que a mãe consiga cuidar melhor da sua alimentação nesse período?
Resposta: A nutrição no puerpério não é uma responsabilidade individual da mulher; é um dever compartilhado com sua rede de apoio. Como profissionais, devemos envolver ativamente o parceiro ou os familiares presentes nas consultas para alinhar as expectativas e papéis.
A melhor forma de a rede de apoio ajudar não é “segurar o bebê para a mãe limpar a casa”, mas sim assumir a gestão da cozinha e da rotina doméstica para que a mãe possa focar em descansar, amamentar e se alimentar.
Ações simples fazem toda a diferença: o familiar pode ser o responsável por montar um prato de comida (já cortada, para facilitar) e entregar à mãe acompanhado de um grande copo de água no exato momento em que ela se senta para amamentar.
Além disso, a rede de apoio atua como um “escudo protetor”, filtrando palpites e comentários sem base científica que possam gerar culpa, insegurança ou restrições alimentares infundadas na rotina da mulher.